Ocupações de Nível Superior e Ocupações Populares: novas categorias de estratificação social

Por Mauricio Munhoz Ferraz, diretor do Prodata/Folha Pesquisa

Um pesquisador se vê diante da possibilidade de “aplicar ciência à prática” graças ao conhecimento acumulado ao longo de séculos de investigação e pesquisa, além do acesso a informação, técnicas e tecnologias.

Porém, é fundamental ao cientista ficar atento às mudanças pelas quais o mundo passa. Por exemplo, como um instituto de pesquisas percebe as mudanças no poder de compra da população brasileira? E isso tem reflexos no seu comportamento eleitoral?

Como contribuição para o debate, apresentamos uma nova categoria de classificação, que possibilita a substituição da categoria “classe social”, por “ocupação” dos indivíduos pesquisados.

Antes, é necessário salientar que o debate mais caloroso nas ciências sociais gira em torno de “quais as maneiras de fazer ciência”, e estas maneiras vão desde a escolha da metodologia e técnicas empregadas para coleta e análise dos dados até os critérios para escolha e tamanho da amostra da população a ser analisada. A metodologia é entendida como um conhecimento crítico dos caminhos do processo científico, sua função é o questionamento acerca dos limites e possibilidades da própria ciência (Demo, 1989). A máxima “toda questão técnica, implica uma discussão teórica” ganha espaço e sentido. Enfatiza-se a necessidade do exercício da intuição, imaginação e liberdade intelectual do cientista. O método é um meio pelo qual o cientista busca evidências lógicas, empíricas e insigths necessários para a interpretação e análise.

É preciso ter cuidado extremo quanto aos critérios de seleção e estratificação da amostra estudada. Estes procedimentos e critérios de definição da população amostrada tentam evitar que aquela população seja composta de “outsiders” ou “free riders”, ou seja, pessoas que fogem do comportamento normativo da população estudada.

Como os procedimentos e critérios podem e devem ser sistematizados por meio de categorias de classificação previamente elaboradas, a partir de todas as necessidades oriundas dos métodos e técnicas usados, as menções e categorias são organizadas em núcleos temáticos que dão suporte à definição da população selecionada para compor a amostra.

Tanto em pesquisa qualitativa como quantitativa é necessária uma separação das categorias ou estratificação da população estudada, o que usualmente é feito por “classes”. A classificação por “Classe Social” se baseia na posse de bens duráveis e escolaridade da população (Critério Brasil), mas o Brasil tem convivido com um processo de rápida transformação referente a acesso ao consumo e ao ensino, e como conseqüência há um crescimento da chamada “classe C” e uma diminuição, sobretudo dos membros das “classes D e E”.

Diante dessa nova conjuntura, busca-se coletar e estratificar os entrevistados conforme sua ocupação, sendo que para efeito de distinção, a classificação seria entre pesquisados de ocupações de nível superior e ocupações populares. Na primeira categoria podem-se destacar médicos, empresários (excluindo a informalidade), advogados, etc. e seus dependentes. Já as demais ocupações e os não ocupados (desde que não dependentes dos da ocupação de nível superior) serão classificados como ocupações populares.

Esta possibilidade de um novo critério de seleção dos pesquisados é fruto de um diagnóstico elaborado pela Prodata/Folha Pesquisa, chamado de “Mapa de ocupação e do desemprego”, onde foi possível verificar que na cidade de Cuiabá aproximadamente 25% de sua população com idade a partir de 16 anos estão entre o que chamamos de ocupações de nível superior. Em contrapartida, os 75% restantes estão entre o que chamamos de ocupações populares, considerando entre estes a grande maioria dos desempregados, cujo perfil na cidade de Cuiabá é composto, majoritariamente, por cidadãos com baixa escolaridade, sobretudo jovens e moradores da periferia.

A proposta de uma nova possibilidade de categorias de estratificação tem como objetivo atender a nova realidade social e contribuir para o fértil debate nas ciências sociais, e se o objetivo maior é a unidade neste ramo do conhecimento, talvez a tolerância para com novas abordagens e procedimentos diversificados seja o primeiro passo.

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